Google
 

quinta-feira, 22 de março de 2007

A tarde em que Marola virou fóssil, na pequena área do gol de fundo do Morumbi


Por Ricardo Lugó

Quando falamos em Rodolfo Rodriguez, fatalmente nos lembramos da incrível seqüência em que, deitada, a muralha uruguaia (ah, nada mais prazeroso nesta vida do que mergulhar no universo dos clichês do esporte bretão) defendeu 3, 4, 5 bolas chutadas à queima-roupa, em jogo contra o América de Rio Preto, na Vila Belmiro.

Bola afastada para escanteio, levantou-se, bateu as mãos uma contra a outra, como se estivesse tirando poeira de suas ferramentas de trabalho, e posicionou-se no centro do gol, novamente, com sua habitual sisudez. Provavelmente passou-lhe pela cabeça jogar a próxima partida com vendas, para aumentar, nem que fosse minimamente, a chance de êxito dos atacantes que enfrentava.

O ar, austero, podia ser fastio, também: Talvez estivesse imaginando que antes de ir pra casa teria de passar na padaria para comprar 200 gramas de queijo e 150 de presunto. Ou seria o inverso? De qualquer forma, para um goleiro naquela fase, jamais passaria pela cabeça comprar peito de peru.

Já de Marola, antecessor imediato de Rodolfo no Santos, isso no início dos anos 80, as imagens que restaram foram o gol sofrido do árbitro José de Assis Aragão, contra o Palmeiras, em um Morumbi enlameado, e os três espetos que levou na final do Brasileirão de 83, completamente esgotado e impotente, contra o Flamengo.

Pode reparar. Se imagens de Marola aparecem na TV, em algum programa futebolístico que prima por recordar tempos heróicos do esporte bretão, são as duas partidas mencionadas acima que surgem na tela. Nenhuma defesa, nenhum milagre, nenhuma “mão trocada”. Revelado pelo XV de Jaú, Marola não foi um goleiro extraordinário, era apenas razoável, chegou a viver boa fase, não fazia feio no time do Santos de então, mas sua história reduziu-se a lances dessas duas partidas.

Imediatamente após o gol de Aragão (que não era Renato e sim José Assis, embora cultivasse a mesma vocação para trapalhão), Marola (veja o vídeo) partiu para cima do árbitro, desconfio que não para protestar contra o empate obtido a duras penas pelo Palmeiras (tudo o que o Palmeiras obtinha naqueles anos era a duras penas), mas sim para vociferar contra aquele que aprisionara a sua biografia a um lance patético. Marola ficou fossilizado ali mesmo, no chão das proximidades da pequena área do gol de fundo do campo do Morumbi. Aquele espectro que se levantou para rugir palavras chulas, que este blog familiar cora só de imaginar, era seu fantasma. Seu ectoplasma, explicaria melhor doutor Fritz.

Se Marola ficou fossilizado ali mesmo, naquela tarde de domingo chuvoso, seu fantasma tentou seguir adiante. Chegou até mesmo a disputar a final do Brasileirão de 83. No primeiro jogo da final, no Morumbi, o Santos venceu por 2 a 1. Na partida derradeira, no Maracanã, 3 a 0 para o Flamengo, fora o baile, gols de Zico, Leandro e Adílio. Marola não falhou em nenhum dos gols, mas era o retrato do Santos daquela tarde. Impotente, desejoso de que tudo acabasse rápido, o importante era sair dali imediatamente. Como o condenado que, sem forças para resistir, exorta para que seus algozes ativem logo a alavanca da forca.

O Santos tinha na ocasião uma dupla de zaga que tranqüilamente seria titular hoje em dia no time de Presidente Bernardes: Márcio Rossini e Toninho Carlos. Tinha também um goleiro reserva briguento, Silas, que três anos depois levou a Inter de Limeira ao título do Campeonato Paulista contra o Palmeiras. Já no réquiem da partida, Serginho Chulapa arrumou uma confusão daquelas em que até os reservas entram em campo para participar da pancadaria. Silas, exímio em uma dessas artes marciais que existem por aí, mandou brasa, sozinho, em meio time do Flamengo. Não era um Beijoca, mas dava os seus sopapos com indisfarçável satisfação.

Ainda nesta partida, o habilidoso ponta-esquerda João Paulo, do Santos, teve o supercílio aberto e prosseguiu impassível na partida, botando sangue por todos os orifícios do corpo e transformando a camisa do Peixe na do Internacional. Em nenhum momento, o árbitro insinuou que ele deveria deixar a partida, que poderia sentir tontura, que ficaria desidratado, que o calção estava pra fora da camisa. Vivíamos ainda uma era romântica...


"Cada um tem o lugar na história que merece", filosofa o inesquecível arqueiro para este cronista.

Nenhum comentário: